16.3.14

os últimos meses

Da última vez que publiquei no blog tinha chegado a Portugal à cerca de uma semana e , passados quase dois meses de dizer adeus a Istambul, finalmente falo sobre esta experiência.

"Jogar pelo seguro" nunca me seduziu, e na hora de escolher o local onde realizar a mobilidade internacional os meus critérios de escolha eram: ficar na Europa e não ir para os países moda (como quem diz República Checa e Polónia). Verifiquei a lista de escolhas possíveis, e com apreço que tenho pela Suécia, esta ficou no top de escolhas, juntamente com a Turquia, Hungria e Irlanda. Confesso que já há algum tempo sonho com a vida em Estocolmo, mas apesar de haver várias escolhas na Suécia, nenhuma delas era na capital, fazendo com que desistisse da ideia, pois devido à experiência do meu irmão, que fez Erasmus na Dinamarca, os países nórdicos para além das capitais são mais parados que as Caldas das Taipas. Como tal, o corte na Suécia foi feito. Não sei ao certo como, mas a ideia de ir para Istambul começou a formar-se na minha cabeça. Confesso que até então o interesse pelo Médio Oriente nunca tinha sido aprofundado e não tinha ideia formada sobre a Turquia. Mas, após uma conversa com os meus pais e irmão, e com o apoio destes decidi optar por escolher Istambul como cidade destino nesta viagem de um semestre. 
Antes de me aprofundar sobre o início da aventura, é importante realçar a importância da família em toda esta situação: o meu irmão ficou muito entusiasmado com a ideia e ajudou-me na pesquisa; e os meus pais, apesar da natural desconfiança pela Turquia, deram-me um empurrão e fizeram "ouvidos moucos" àqueles que diziam que eles eram malucos em deixar a filha mais nova ir para um "país tão perigoso". Obrigada por isso. Obrigada por não ouvirem aqueles que pouco (ou nada) sabem da Turquia e obrigada me apoiarem de início a fim nesta arrojada aventura.
No dia 18 de Setembro de 2013 o meu avião partiu de Lisboa e as lágrimas dos meus pais no aeroporto teimaram em sair. A primeira semana em Istambul foi a pior de toda a mobilidade: a residência onde tinha sido colocada não tinha local para eu ficar, mudaram-me de residência, os funcionários não falavam Inglês (e eu não falava Turco), sentia-me sozinha e a vontade de voltar para casa e dar por terminada a minha viagem era enorme. Eis que essa semana passou e fiquei alojada na mesma residência onde me tinha inscrito e partilhava quarto com mais três raparigas, residentes da Albânia, Geórgia e Cazaquistão. E então a "normalidade" começou: fiz amizade com uma rapariga do estado de Iowa nos Estados Unidos e o facto desta saber Turco ajudou com que resolvesse todos os problemas que tinha com burocracias tanto na Universidade como na Residência (escusado será dizer que a Angela deitou por terra todos os estereótipos de americanos que os europeus tanto teimam em enraizar). A universidade onde fiquei colocada, que se localiza nos subúrbios de Istambul, era maioritariamente frequentada pela classe média-alta religiosa Turca e levou a que tivesse contacto com a religião Muçulmana, que é tão pouco desenvolvida em Portugal. O método de ensino na Turquia, pelo menos na Universidade de Fatih, é bastante diferente do Português. A abertura por parte dos professores é maior e o à vontade por parte dos alunos com os mesmos é extraordinária. Tinha aulas apenas com alunos turcos, pois naquela universidade os alunos escolhem entre terem aulas leccionadas em Turco ou Inglês. Criei ligações com bastantes turcos e se a impressão inicial que tinha do povo turco não era positiva, desvaneceu totalmente. Um mês e meio depois de chegar a Istambul mudei-me para a casa de amigas com quem tinha feito viagens a Antália, Capadócia e Ancara: quatro miúdas de Taiwan que, apesar de já terem completado a licenciatura no seu país natal, decidiram alargar a matrícula para poderem fazer mobilidade de estudos na Turquia. Uma semana depois da minha chegada a casa delas (agora nossa), uma amiga da Coreia do Sul que vivia na mesma residência que eu mudou-se para lá e a "Taiwanese Home" estava recheada de residentes da Ásia Oriental. Se a absorção da cultura turca já fazia parte de mim, a cultura asiática era quase minha. Em jeito de brincadeira, quando tínhamos visitas de amigos europeus em casa, eu era já mais asiática do que europeia e orgulhava-me disso. As diferenças culturais entre nós eram bastante notadas, mas nunca levaram a discussões e vivíamos em "paz mundial". Aliás, quanto mais pesquisava e ouvia as suas histórias, mais fascinada ficava pela Ásia Oriental. Encontrei verdadeiras amigas, irmãs e confidentes "em Taiwan" e espero, mais cedo do que tarde, viajar até ao seu país e compreender melhor tudo aquilo que falavam. 
A Turquia é um país fantástico: a história, a beleza natural e a cultura da mistura entre o Médio Oriente e a Europa é inigualável. Um país cativante para se visitar e viver, com locais únicos de norte a sul. Visitei várias cidades além de Istambul: Antália, Capadócia, Ancara e Izmir, mas sempre que lá estava sonhava com a volta a Istambul, essa cidade sem igual. Passar de um país com 11 milhões de habitantes para uma cidade com quase 14 milhões é radical, mas mais do que recomendado. 
Em Novembro tive uma visita de uma amiga, em Dezembro a minha mãe e o meu irmão foram a Istambul e na passagem de ano, a minha prima e a sua família também lá estiveram. Estas curtas visitas e o Skype quase diário com a família traziam-me bocadinhos de Portugal, e fizeram que apenas tivesse saudades das pessoas (e das comidas, confesso) do nosso país, pois não poderia estar melhor naquela cidade.
Voltei a Portugal no dia 18 de Janeiro e, se não chorei ao despedir-me de ninguém, chorei na despedida da cidade, com o efeito cliché, mal entrava na porta de embarque.
Saldo super positivo - 14 milhões - desta experiência que, com todas as forças, nunca irei esquecer! 

Entretanto, passadas duas semanas de voltar a Portugal, viajei até à Suécia, mais propriamente Estocolmo, onde fui ao encontro de duas das minhas colegas de casa de Taiwan que estão a fazer uma viagem pela Europa desde que saíram de Istambul em Janeiro. A sorte está com elas, e está nos seus planos virem a Portugal em Abril e conhecerem o nosso cantinho. A Suécia não foi o primeiro país nórdico onde estive -  já tinha visitado a Dinamarca em 2008 quando o meu irmão fez Erasmus - e adorei, como era de esperar. Estocolmo é uma cidade bonita, limpa, educada e culturalmente rica.

Este LONGO post partilha parte daquilo que vivi nos últimos meses, e agora, já bem assente na realidade do ISCAP e das Caldas das Taipas, quero agradecer aos meus pais, ao meu irmão, aos meus amigos que ficaram em Portugal e àqueles conheci durante a minha jornada.

É bom ser jovem e ter quem goste de nós!

1 comentário:

  1. Muito bem. Só faltou escrever uma coisa, que também é importante nos dias de hoje: Estes meses que passaste em Istambul - e com ótimo aproveitamento curricular - financeiramente nada custou aos teus pais. Quanto não vale ser poupada!

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